Erechim: cirurgia é realizada de forma inédita e pelo SUS

Procedimento para retirada de um tumor cerebral ocorreu por meio de técnica em que o paciente permanece acordado e conversando. Após seis horas de trabalho, resultado foi muito positivo

Em tempos de pandemia, em que muitos procedimentos cirúrgicos estão sendo adiados, exceto as emergências, um mereceu destaque e foi realizado na manhã de hoje (9), na Fundação Hospitalar Santa Terezinha de Erechim. A ‘Awake surgery’ – ‘Cirurgia acordado’, inédita no município, aconteceu pelo Sistema Único de Saúde e mobilizou a equipe médica.

Ao todo foram seis horas de trabalho e o resultado foi muito positivo. “O procedimento exige uma técnica anestésica muito especial e cuidadosa, com aparelhos para monitorar a atividade elétrica cerebral. Ao mesmo tempo, no momento mais importante da cirurgia, que é a resseção do tumor, o paciente precisa estar completamente em alerta, respondendo perguntas, reconhecendo figuras, fotos e expressando o que está sendo visto. Um descuido nessa área pode gerar uma sequela definitiva”, explicou o médico neurologista, Rafael Badalotti, que atuou junto ao especialista da mesma área, Diego Dagostini, dos anestesistas Vitor Pacheco e Hugo Manzano Garcia, além de profissionais de enfermagem.

O paciente é um erechinense, de 43 anos e com o diagnóstico de Glioma. Ele já havia sido operado pela primeira vez há oito anos, fez radioterapia e quimioterapia, e, segundo os médicos, dentre os pacientes com essa doença, teve uma evolução muito além da média.

Contudo, recentemente começou a apresentar crises convulsivas. Com isso foi realizada uma nova ressonância e constatado o retorno do tumor, em uma área posterior à original, localizada na região responsável pelo centro da fala (denominada área eloquente ou nobre do cérebro), em que a resseção desse tumor sem um cuidado muito específico, poderia deixar uma sequela incapacitante, que seria a perda da capacidade de falar.

Do diagnóstico até hoje, dia do procedimento, se passaram em torno de 30 dias. “Esse é um paciente com excelente adesão, a cada seis meses faz a consulta de revisão, exames, e estávamos monitorando o quadro. Por isso, ao mínimo sinal de que a doença havia se tornado mais intensa, agimos, sem postergar”, comentou o especialista, salientando que o método de ‘Awake surgery’ é algo realizado, geralmente, em grandes hospitais, com mais recursos. “É algo muito bacana, poder usar essa técnica aqui. Nos fornece muita segurança, tanto para o médico como para o paciente. Ele também precisa ser muito colaborativo, aceitar ficar muitas horas na mesma posição, sendo que é desconfortável”, acrescentou.

Cuidados e diferenciais

Segundo Badalotti, um dos cuidados essenciais nesses tipos de cirurgia, se refere às fibras motoras do cérebro que, sendo lesadas, podem levar a uma deficiência de movimento. “No caso do paciente de Erechim, estava próximo a uma área da mão. Por isso, a todo momento solicitávamos que ele a movimentasse”, pontuou. Logo após o término da cirurgia, o paciente já estava bem, sem dor, conversando e não ficou com sequelas.

Outro ponto destacado pelo neurologista, é que o paciente não necessitou de CTI. “Sem intubação e ventiladores, ele foi direto para a sala de enfermaria onde ficará até quinta-feira. É magnífico, uma sensação maravilhosa poder trabalhar com uma estrutura tão complexa e saber que não há nenhum tipo de dor ou desconforto para o paciente”, enalteceu.

A importância da continuidade dos tratamentos

O especialista ressaltou, ainda, que mesmo em um período diferenciado, o hospital prossegue os atendimentos em diversas áreas, e no caso das cirurgias relacionadas à área oncológica, elas não podem esperar. “Ao se protelar um procedimento, deixar de fazer os exames de rotina e o acompanhamento com o especialista, há expressivas chances de se perder um tratamento eficaz, até mesmo uma cura”, reiterou, citando que isso deve ser um alerta à população, pois tem havido uma “pandemia de doenças oncológicas” pelo retardo no diagnóstico. “Além da covid-19, há muitos outros problemas que continuam surgindo”, frisou.

Badalotti exaltou o apoio importante da equipe de anestesia. “Eles foram em busca de equipamentos especiais e medicamentos para contribuir em todo o processo”.

Avaliação dos anestesistas

O médico anestesista, Vitor Pacheco, comentou que, em razão de o tumor estar localizado em uma área importante do cérebro, quanto menos se retirasse da área no entorno, melhor seriam os resultados. “Por isso, mais um desafio: fazer o procedimento com o paciente acordado, para não comprometer nenhuma função cognitiva, e, ainda, sem dor”, completou.

Vitor lembrou que durante esse tipo de cirurgia são utilizados recursos para monitorar o paciente (que deve ser orientado, ser calmo, não pode estar tossindo), e, por ser uma cirurgia menos invasiva, o pós operatório costuma ser mais rápido. “Há pacientes que em até dois dias já vão para casa”, disse.

Do mesmo modo, o colega anestesista, Hugo Manzano Garcia, evidenciou que o procedimento ocorreu conforme o esperado e citou que há outras situações em que é possível fazer cirurgias com o paciente acordado ou sedação leve. “São utilizados medicamentos que mantem a analgesia do paciente e não tiram a consciência. Então ele respira normalmente, podendo conversar”, relatou.

A partir de agora o paciente continuará o acompanhamento com as equipes de neurologia, neurocirurgia e oncologia, e já pode celebrar o êxito dessa que foi a principal modalidade terapêutica.

Matéria Retirada do Jornal Bom Dia, 09/06/2020.

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